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Cem anos
entre Freud e
Bion –
fragmento
inspirado por
este encontro
Celso Gutfriend
Não, em
definitivo não.
Não ouvimos
crianças.
Ainda não. Ainda
não nos ouvimos.
Crescemos e nos
esquecemos.
Repressão?
Recalcamento?
Que importa o
nome da palavra
quando não
ouvimos?
Quando o
silêncio é medo,
opressão,
desencontro?
A pergunta ecoa,
repressão?
Recalcamento?
Talvez.
Bion, o patrono
desta casa,
diria alto lá,
sem memória,
please, sem
desejo, ok, sem
satisfação nem
saturação, o
abstrato é mais
embaixo.
Com licença,
Bion, não
ouvimos
crianças, porque
não nos ouvimos,
não nos ouvimos,
porque não
ouvimos a
criança dentro
de nós. Esta
criança grita.
Uma criança quer
mandar e dizemos
não manda.
Uma criança quer
pular e dizemos
não pula.
Uma criança quer
representar o
impulso falando
em cocô e bunda
e dizemos não
fala.
Uma criança quer
mostrar a nossa
falha e dizemos
não mostra.
Uma criança quer
perguntar e
dizemos agora
não, depois,
depois. Depois
já chegou para
nós, mas não
para a criança
dentro de nós.
Perdemos tantas
oportunidades
com as crianças
de fora e de
dentro,
especialmente
quando ainda
querem perguntar
e desobedecer.
Depois se calam
em definitivo,
espécie de morte
verdadeira.
E se ressuscitam
que crianças tem
o dom da
insistência,
também
insistimos feito
crianças: não,
agora não.
Ah, são tempos
diferentes e, de
preferência, que
o nosso velho
tempo (tão
presente) não
volte a ser
atiçado pelo
novo tempo da
criança. Um
espaço nos
sufoca. Uma
falta de espaço
entre adulto e
criança.
Não estivemos
parados.
Brincamos e
trabalhamos. Já
toleramos um
pouco mais a
sexualidade, a
impureza, a
maldade da
criança. Um
pouco mais. Mas
ainda não
escutamos, isto
seria demais.
Ainda não.
Ainda não
deixamos que a
criança seja o
que é, pois se a
criança for o
que é, há de
lembrar-nos que
há pouco não
éramos escutados
quando
precisávamos
tentar mandar
(não conseguir,
só tentar),
pular (e cair e
levantar),
mostrar a falha,
dizer cocô e
bunda como uma
coisa boa e,
sobretudo,
perguntar.
Há cem anos,
Freud o fez.
Ele,
simplesmente,
escutou.
Corajosamente,
escutou.
Escutou como
Bion pedia, sem
taxar,
sobretudo, sem
taxar de
mentira,
loucura, era
tudo humano,
cavalo,
co-leito,
girafa,
bombeiro, era
tudo humano.
O que importa a
técnica – a
técnica mudou
tanto – quando
se escuta? O que
importa a
técnica – a
técnica vai
mudar tanto –
quando se
escuta? Ele
escutou e a
escuta
sobreviveu e
sobreviverá a
todas as
técnicas.
Que tratamento
não funcionaria
se escutasse e
compreendesse?
Freud escutou e
compreendeu.
Ele foi o
primeiro que
contou esta
história
perigosa e
bonita de
escutar. De
escutar pra
valer.
Ele saiu da fila
da vista grossa
e viu o que era,
saiu da fila dos
ouvidos moucos e
ouviu tudo.
Ainda hoje,
tantas técnicas
depois, poucos
seguem esta
trilha arriscada
de escutar e
escutar-se no
mais vulnerável
e fascinante de
nós. Isto vale
para as casas,
os consultórios,
as escolas.
Mas os que
conseguem
escutar, como
Freud, ou, quem
sabe, mais
ainda, dão a mão
para Bion e
roçam o gozo e a
graça de jogar
nomes ao terror
sem nome, como
quem joga
pedrinhas num
rio. E
transformar em
amor uma coisa
em si, como quem
vive.
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